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O Lado Bom da Teimosia

by Flavia Machioni

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Tem algumas características que devemos cultivar se quisermos chegar a uma longevidade saudável. Neste episódio, o último da temporada sobre O Poder do Tempo, trago minha última reflexão sobre o que aprendi visitando a Blue Zone da Sardegna, na Italia. Espero que goste!

Transcrição

Eu não sei quanto contato você tem com pessoas que passaram dos 80 anos.

Eu tenho o enorme privilégio de ter os meus avós vivos e lúcidos.

Os meus avós maternos,

Eles estão com 87 anos e a minha avó materna com 85 anos.

Eles já viveram muita coisa.

Já viveram dias ruins,

Dias médios,

Dias ótimos.

Eles criaram seus filhos,

Se tornaram a base para a família,

Deram suporte a eles e aos netos quando cada um teve as suas dificuldades.

Eles já perderam seus pais,

Seus irmãos,

Vários dos seus amigos e um dos filhos.

Passaram por cirurgias,

Viram a sua autonomia decaindo com o passar dos meses e a sua força diminuindo dia após dia.

E hoje em dia ainda vivem com as limitações para poderem ver a sua própria família com o perigo do Covid.

Eu sempre tive um respeito,

Carinho e amor enorme por eles.

E talvez por isso,

Ao visitar as famílias sardas na Itália,

Eu tenha ficado tão mexida e tenha transformado a longevidade em tema para essa terceira temporada do Bocadinho.

Escrever sobre longevidade a partir de uma experiência que eu tive que foi tão única,

Rica e livre,

De poder ir até a Sardenha,

Ficar um mês viajando e desbravando a cultura deles,

Conhecendo pessoas,

Entrando em suas casas e ouvindo as suas histórias,

Poucos meses antes de vivermos algo tão inimaginável como a pandemia que estamos,

Que nos mostrou tão frágeis e vulneráveis,

Nos fez reavaliar o que valorizamos e nos lembrou que não temos controle algum,

Trazendo tanta coisa tona,

Tem um peso a mais.

Falar de longevidade e sobrevivência em um ano como 2020 tem um que filosófico e sutil maior que o prático e o objetivo.

Pensar em viver muitos anos com saúde física e mental depois do que estamos passando muda o tom da conversa.

A gente tem que discutir menos se os centenários comiam carne ou planta e mais como que eles sobreviveram a guerras,

Perdas,

Distâncias e limitações econômicas e tecnológicas e como depois de todo o peso que já suportaram,

Conseguem ainda ter uma certa leveza.

E ao olhar de pertinho para os velhinhos italianos e os meus velhinhos,

Eu vejo que a doçura e sabedoria que eles têm se misturam com o cansaço e a fraqueza,

Que o peso nas perninhas deles para se locomoverem,

O saudosismo das histórias e o inconformismo com o que o mundo virou,

São consequências de uma característica que deve ser comum a maior parte das pessoas que alcançam longevidade e que continuam sobrevivendo,

A teimosia.

A longevidade possível tem um fator único que sem ele não tem como chegarmos lá,

A sobrevivência.

A teimosia requer coragem,

Coragem de não ceder,

Coragem de mudar,

De fazer o que deve ser feito para continuar.

A teimosia precisa também de flexibilidade,

Bastante flexibilidade,

Porque teimosia sem flexibilidade se torna intransigência.

Para não se tornar intransigente,

Você vai precisar de um pouco de ingenuidade,

Ingenuidade para resgatar a simplicidade e crença de que vai ser possível fazer diferente,

Que vale a pena ser honesto e puro,

Pois ao sermos ingênuos poderemos ser simples,

Honestos,

Honrados,

Íntegros,

Modestos,

Crédulos e puros.

Mesmo frente à crueldade,

Malícia e corrupção que fazem parte do mundo desde que o mundo é mundo.

Quem sabe a receita para a sobrevivência seja uma boa dose de teimosia,

Com um ponhado de coragem,

Flexibilidade e um bocadinho de ingenuidade.

Basta sobrevivermos por alguns anos para começarmos a perceber que a vida é um eterno choque de extremos,

Do doce e do amargo,

Do feliz e do triste,

Do belo e do feio,

Do rápido e do devagar,

Do jovem e do velho,

Do leve e do pesado.

E provavelmente é esse choque que nos faz refletir sobre a nossa vida,

O sentido de estarmos aqui e que nos dá chance e espaço para crescermos e evoluirmos.

Como eu já disse algumas vezes aqui no Bocadinho,

Ninguém evolui sem desconforto.

Milan Kundera,

Quando escreveu sobre a insustentável leveza do ser,

Falou que o mais pesado dos fardos nos esmaga,

Verga-nos,

Comprime-nos contra o chão.

Quanto mais pesado é o fardo,

Mais próxima da terra está a nossa vida e mais real e verdadeira ela é.

Em compensação,

A ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar,

Leva-o a voar,

A se distanciar da terra,

Do ser terrestre,

A se tornar semi-real e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.

A insustentável leveza do ser,

O contraste eterno da vida e do mundo,

A dúvida sobre qual dos dois escolher e a dificuldade em saber qual o peso que queremos e conseguimos carregar.

Contrastes que se traduzem no respiro aliviado da mãe cansada quando os filhos saem para a colônia de férias e o peso no peito que ela tem ao pensar que em breve eles sairão de casa para construírem as suas próprias famílias.

Na alegria leve no peito dos avós quando olham para os netos e percebem que criaram bem os seus filhos e que seus filhos estão criando as suas próprias famílias,

Ao mesmo tempo que sentem no corpo o peso dos anos de preocupação e dedicação que o fizeram chegar até ali.

O peso leve nos dá a sensação de liberdade,

De plenitude.

Uma plenitude que parece vazia,

Mas que está completa por algo que não conseguimos enxergar e nem mensurar.

A leveza que sentimos ao não ter preocupações,

Sejam com pessoas para cuidar e dar atenção,

Sejam compromissos e deveres que temos,

Por mais que pareça nos completar,

Ela é tão leve que se torna insignificante.

E o mais confuso de tudo é que a leveza dos momentos de plenitude nunca é vazia.

Ela tem um peso tão sutil e constante que nem mesmo sentimos.

A gente não enxerga o ar,

A gente não preenche nada de fato com ele.

Ele está em todo lugar e em lugar nenhum.

Até no vácuo existe ar.

E é por isso que uma vida leve,

Sem peso,

Sem contraste,

Sem confronto,

Sem dificuldade acaba se tornando uma vida com sensação de vazio.

Ao mesmo tempo que não queremos morrer,

Não queremos envelhecer.

Queremos ser jovens,

Mas também queremos saber mais,

Conhecer mais,

Viver mais.

Queremos ser livres,

Mas queremos fazer parte.

E por isso,

Pra mim,

Liberdade mesmo é ter os seus limites bem definidos.

Enquanto não temos limites,

Enquanto não sabemos até onde ir,

Não há liberdade de fato.

E a gente só sabe o limite porque a gente se confronta com ele.

Porque ele é sólido,

Pesado,

Ele demarca,

Ele tem presença.

E o confronto que vem justamente sem avisar,

Que não temos controle e que nos deixa em situações que a gente não teria escolhido por livre e espontânea vontade,

É um dos passos para a sobrevivência,

Que é a condição da longevidade.

E não é o mais forte que sobrevive,

E sim o mais adaptável.

E pra ser adaptável,

Realmente acho que vamos precisar de teimosia,

Flexibilidade,

Coragem e ingenuidade.

O peso da vida,

Ele existe justamente pra que a gente consiga aprender com ele.

A gente pode aprender pela dor ou pelo amor,

E a diferença não está no que te acontece,

Mas sim em como você reage.

Eu não imaginei que encerraria minha temporada sobre longevidade possível falando sobre a teimosia necessária pra sobreviver.

Eu que sempre achei que ser teimosa era um defeito,

Eu começo a pensar que se usada na dose certa,

Ela é um elixir mágico pra nos manter nesse mundo doido e lindo,

Que provavelmente vai continuar nos surpreendendo e nos desafiando,

Ao mesmo tempo que nos permite sentir coisas incríveis e maravilhosas.

Eu encerro a terceira temporada do Bocadinho com o desejo sincero de você conseguir extrair só o bom desse ano difícil que a gente tá passando.

Por mais que essas dificuldades que passamos,

Elas possam gerar traumas,

E por mais que a gente deseje muito que elas não ocorram porque são terrivelmente dolorosas,

A gente sabe que ao não desistir,

Persistir e dar sequência com o caminho,

A gente sai do outro lado muito mais forte,

Resiliente e grato ao que já temos.

A nossa reação e crença frente às dificuldades é o que transforma o evento em si.

Então se você acreditar que os desafios e traumas que acontecem com você são oportunidades pra você crescer,

É isso que eles vão ser.

Agora se você acreditar que eles vão arruinar a sua vida,

Você vai ficar preso neles.

A diferença tá nas suas mãos e depende da sua inteligência emocional,

Autoconhecimento e do suporte que você tem das pessoas que você ama.

A longevidade possível é lembrar que a vida é o caminho em si,

Não o destino.

Porque quando chegar a hora de ir embora daqui,

O mais bonito não vão ser os últimos dias,

E sim o caminho que você trilhou até ali.

Então seja teimoso em se manter no seu caminho,

Tenha flexibilidade pra fazer os desvios necessários,

Coragem pra encarar subidas,

Descidas e noites escuras que parecem não acabar.

E mantenha-se ingênuo pra olhar tudo como se fosse novo e único.

Se você não ouviu os outros episódios dessa temporada,

Eu te convido a ouvir.

Tem uma sequência bem legal que eu escrevi e dividi com você sobre longevidade e alguns hábitos que eu realmente acredito que fazem a nossa vida ser mais saudável,

Feliz e plena.

Obrigada pela audiência,

Pelo carinho,

Pelas mensagens e compartilhe esse episódio com quem você ama.

Assim você demonstra o seu amor e cuidado e ainda apoia o meu trabalho.

Que os ciclos que estão se encerrando deixem aprendizados e que tenhamos muita saúde para o que se inicia.

E lembre que quem ri todo dia é feliz pra sempre.

4.8 (44)

Avaliações Recentes

Cleci

April 8, 2025

Gratidão 🙏🏻

Mauricelia

December 22, 2024

Gratidão !

Caio

February 29, 2024

Excelente conteúdo ! Em especial gostei muito da associacão entre teimosia e *ingenuidade* ! Isso me reconfortou, reconciliacão com minhas *imaturidades* aos 70 anos !

neide

December 20, 2023

Muito interessante! Gratidão 🙏

Claudia

October 11, 2021

Enteressante ponto de vista grata e obrigada por mais um aprendizado 😁

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