
É Possível Parar de Pensar?
by João Alencar
Afinal, meditar significa mesmo "parar de pensar"? E como se faz isso? Na primeira parte deste áudio (10 min), compartilho com vocês algumas reflexões sobre o parar de pensar nas práticas de meditação. Na segunda parte, acompanhe uma prática de meditação guiada de scan do corpo (20 min).
Transcrição
Olá pessoal,
Aqui é o João,
Voltando a gravar com vocês um podcast,
Mistura de podcast com uma prática de meditação.
E a minha intenção aqui é aprofundar algumas questões relacionadas à meditação,
À atenção plena.
E a questão que eu quero trazer hoje para vocês é essa coisa do parar de pensar,
Que isso aí tem causado bastante controvérsia.
Tem gente que diz que meditar é parar de pensar e tem gente que diz que não,
Que meditar não é parar de pensar.
Só que se você tentar parar de pensar,
Tentar fazer sua mente não pensar,
Você vai estar em apuros,
Você vai ter problemas com essa tentativa porque você não tem como fazer isso.
Então,
Eu vou tratar dessa questão aqui e eu diria que meditar é parar de pensar por um lado e não por outro.
Primeiro,
Vamos dizer o que é pensar,
Vamos definir essa questão.
Se a gente fala de pensamento como a questão da sua consciência,
Então meditar não é parar de pensar porque você não vai ficar em estado vegetativo no momento da meditação,
No sentido que você não vai ficar inconsciente,
Você vai ter as suas percepções sim,
Os seus sentidos vão estar funcionando plenamente.
Não é a intenção da meditação anular e nos anestesiar para todos os sentidos,
Para todos os inputs,
Os insights e tudo que vem de fora ou até da nossa própria mente.
Então,
A ideia não é virar uma pedra.
Se você acha que parar de pensar é apagar a sua consciência,
Você realmente não vai fazer isso e não é essa a intenção aqui.
Agora,
Se a gente levar em consideração pensamento como uma ação de imaginação que a gente conduz com a cabeça,
Com a mente,
Então,
De certa forma,
Meditar é sim parar de pensar,
Porque a ideia de uma prática de meditação é você direcionar a sua atenção principalmente para os sentidos,
Mas também pode ser alguma visualização,
Alguma ideia que você vai estar trazendo na sua mente e vai tentar sustentar aquilo o máximo possível.
E aí,
Então,
A sua mente pode ter devaneios,
Pode fugir da sua atenção ali e começar a trazer imagens e ideias desconectadas com a sua prática de meditação.
Então,
Você vai estar viajando na maionese,
Então,
Você vai estar imaginando,
Pensando.
Por esse lado,
Então,
Parar de pensar é um objetivo interessante na prática da meditação,
Porque a prática em si vai tentar disciplinar a sua mente no sentido de mantê-la focada naquele ponto que você escolheu como a sua prática,
Seja uma observação de uma pedra,
Seja uma observação da sua respiração,
Você vai tentar o máximo possível ficar o tempo todo com a mente ligada naquele ponto focal.
E é claro que a mente vai querer pular de galho em galho e fugir para tudo quanto é distração possível e imaginável.
Então,
Vão vir pensamentos sobre o passado,
Ideias sobre o futuro e o máximo possível que a gente vai tentar durante essa prática de meditação é trazer a mente de volta para o presente.
E,
Basicamente,
Se faz isso trazendo a consciência para o seu sentir,
Em vez do seu pensar,
Em vez do seu imaginar.
Ou seja,
Você tem a sua atenção e essa atenção funciona muito como uma luz de holofote,
No sentido que ela é limitada em termos de percepção.
Então,
É muito fácil você perder de vista alguma coisa que você não estava prestando atenção,
Mas que estava bem óbvio na sua frente porque você estava com outros interesses,
Outras ideias na cabeça.
E aí,
Alguém vem falar com você e você não ouviu aquela pessoa.
Passou alguma coisa na sua frente e você não viu aquela coisa.
Ou seja,
A sua atenção é seletiva.
Então,
Não tem como a gente ficar prestando atenção em mais do que um ponto focal ao mesmo tempo.
Então,
Quando a gente está direcionando esse ponto focal durante a meditação,
O ideal é que esse holofote,
Essa luz direcionada,
Fique neste ponto,
Sem ficar variando de ponto e tentando trazer a atenção para outros locais,
Que faz a gente perder de vista a nossa prática de meditação.
Então,
Quando a gente está fazendo uma prática de meditação,
A gente vai tentar fazer justamente essa ideia de voltar para o sentir.
Quando,
Por exemplo,
Você está focando na sua respiração,
Você vai tentar o máximo possível sentir o ar passando,
Sentir o tato mesmo,
O contato do ar com as narinas,
A movimentação do seu peito,
Da sua barriga.
E o máximo possível não fazer comentários,
Não fazer narração mental.
Sabe,
Silenciar aquele narrador de futebol que está na sua cabeça comentando tudo o que você faz ou deixou de fazer.
Então,
A ideia é essa de você simplesmente sair desses conceitos,
Sair desses símbolos.
A linguagem em si é sempre um símbolo para tentar representar a realidade.
Então,
Você vai sair dessa virtualidade,
Que é essa imaginação,
E tentar ficar o máximo possível com o real,
Que é o palpável,
O sensível aos seus sentidos.
Agora,
A gente precisa levar em consideração também que várias distrações vão chegar até nós,
Sejam barulhos do ambiente ou,
Sei lá,
Vozes,
Tosses,
Espirros,
Sons de cachorro,
De trânsito,
E que a gente vai tentar relevar e não lutar contra.
E também os pensamentos que vêm na cabeça da gente durante a prática meditação.
O ideal é não lutar contra e não ficar ressentido com o fato de você ter se distraído durante a prática,
Porque você vai estar dando força àquele fato que aconteceu de que você se distraiu.
E o ideal,
Na verdade,
É que cada vez que você se distrai,
Você simplesmente percebe que se distraiu e traz de volta o foco da sua atenção de maneira tranquila para o seu ponto focal.
No caso aqui,
Por exemplo,
Eu estava falando da respiração.
Então,
Eu comecei a viajar sobre a lista de supermercado que eu tenho que fazer para repor o estoque aqui da casa.
E aí você abandona aquele pensamento,
Sem ficar com um pensamento negativo em relação a essa distração,
E volta a sua atenção mais uma vez para o foco do aqui e agora da sua prática.
Agora,
Tem mais uma questão que eu gostaria de trazer,
Que é a coisa do pensamento como postura,
Como uma tensão.
É muito comum a gente ter tensões no corpo,
Musculares mesmo,
Que são expressões de preocupações,
Ou que eu estou chamando aqui de uma postura mental,
Que é um pensamento que está fossilizado e,
Digamos,
Congelado no seu corpo,
Expressando-se no piloto automático.
E eu estou dizendo que ele está no piloto automático porque ele está ali rodando de uma forma mais subconsciente,
No sentido de que ele não está sendo necessariamente verbalizado.
Você não está trazendo uma narrativa na cabeça em relação àquilo,
Você não está trazendo imagens em relação àquilo,
Mas aquilo ficou com você como uma sensação.
Então,
É como se fosse essa postura nesse sentido.
E aí,
Quando a gente consegue finalmente parar e observar o corpo,
Tentar relaxar o corpo e observar o que você está sentindo,
E ir cada vez mais soltando a sua musculatura,
Soltando essas tensões para ir percebendo o que está ali se expressando no corpo em termos de preocupação,
Que você já acostumou tanto estar naquele tipo de postura,
Tipo de receio,
De medo,
De emoção mesmo.
Qualquer tipo de emoção que não está necessariamente verbalizada,
Mas que está ali como sendo o seu padrão.
E como é o seu padrão,
Você já deixou de perceber.
Está rodando no piloto automático.
E a gente vai tentar perceber esse padrão que não deixa de ser um tipo de pensamento,
Porque é difícil de separar pensamento de sentimento e de energia também.
Esses três costumam andar juntos.
Quando vem um pensamento,
Vem com ele junto uma carga de emoção,
Uma carga energética.
E,
Às vezes,
Essa carga fica,
Apesar de a gente não estar mais analisando aquele fato ou aquela situação que trouxe essa carga.
A gente não está mais verbalizando mentalmente sobre aquela situação.
Então,
Essa prática de observar onde está esse pensamento,
Onde eu estou com a cabeça,
Onde eu estou com as minhas emoções,
Para poder também soltar e também poder parar de pensar nesse sentido.
Ou,
Digamos,
Mudar o meu padrão,
Mudar a minha postura,
O meu impulso que está rodando de forma que eu mesmo não percebo mais que está ali.
Então,
São questões interessantes para a gente analisar durante o processo de meditação.
Então,
A minha proposta é fazer com vocês,
Depois desses 10 minutos iniciais,
Uma prática de meditação de iscando o corpo para a gente tentar encontrar esses pontos de tensão que a gente mantém no piloto automático de uma forma tranquila,
Sem tentar fazer aparecer uma tensão também.
É claro que a gente vai observar o corpo,
Tentar sentir cada parte à medida que a gente vai escaneando.
Você pode até tentar visualizar uma luz de um scanner mesmo.
Sabe aquelas impressoras que têm um scanner junto e a luz vai escaneando a página?
Você pode tentar visualizar isso,
Mas a ideia mesmo é sentir cada parte.
Você pode começar pelo topo da cabeça e ir descendo.
À medida que você vai passando esse scan pelo seu corpo,
Você vai tentando soltar o máximo possível toda a sua tensão muscular mesmo.
Vamos lá!
Vamos começar,
Então,
Essa prática.
Antes de a gente começar,
Busque se sentar de uma forma confortável,
Tranquila,
Sem muita tensão para ficar ereto,
Não se curvando nem muito para trás e também não se permitindo se curvar muito para frente,
De uma forma confortável,
Porém,
De uma postura que te mantenha lúcido ou lúcida,
Que facilite a sua consciência,
A sua lucidez de não entrar em devaneios durante a nossa prática.
Leve a sua atenção para o topo da cabeça.
Tente realmente sentir o seu tato,
Essa parte superior do corpo,
No couro cabeludo,
Acima da sua testa.
Tente sentir também por dentro,
Como se você se esforçasse por sentir o seu cérebro e dê o comando de relaxamento,
De soltura,
De tranquilidade,
À medida que você vai tentando sentir cada parte do seu corpo.
Acompanhe com sua atenção a sensação corporal,
Descendo pelo topo da cabeça,
Pelo meio da cabeça,
Pela testa,
Chegando até os olhos.
Mantenha-se um tempo a mais,
Dando o comando de relaxamento para os olhos,
A região ao redor dos olhos é uma região onde é comum haver pontos de tensão que passam desapercebidos na maior parte do tempo.
Então busque relaxar cada vez mais os globos oculares,
Toda a região ao redor dos olhos,
Tranquilizando e harmonizando toda essa região superior da cabeça,
Os músculos da testa,
Relaxando mais ainda os olhos,
Soltando todas as preocupações,
Abrindo mão de todas as questões neste momento.
No aqui e agora não é preciso resolver nada,
Você agradece qualquer pensamento de distração que tenha vindo e volta o seu foco a sentir o seu tato,
Os seus olhos,
Sua testa,
Sua cabeça.
Você desce sua atenção pelos olhos para a região maxilar até chegar ao pescoço,
Dando o mesmo comando,
Intenção de relaxamento,
De soltura,
De tranquilidade,
Tentando sentir o máximo possível essa região do seu corpo,
Do pescoço,
Da nuca,
Da parte superior das costas,
Soltando os ombros,
Relaxando,
Tranquilizando,
Harmonizando,
Sentindo e soltando os músculos da região toráxica,
Descendo essa atenção até chegar ao abdômen,
Soltando o máximo possível toda a musculatura,
O máximo que der a ponto de só ter tensos os músculos que te mantém sentado na sua postura ereta.
Tudo mais que não é necessário estar tenso,
Você tenta relaxar o máximo possível,
Descendo com a sua atenção,
Escaneando as partes abaixo do seu abdômen,
O seu quadril,
Também soltando toda a musculatura,
Relaxando,
Trazendo uma sensação de descanso a todos esses músculos que talvez estivessem tensos antes,
Descendo com a sua atenção até o começo ali das suas pernas,
Soltando também os músculos das pernas,
Relaxando,
Tranquilizando,
Harmonizando,
Liberando qualquer energia densa,
Liberando qualquer tensão,
Permitindo a sua atenção e a sua energia fluir para essas partes do corpo,
Praticando perceber a sensação de cada parte,
Também não se incomode caso não perceba a sensação física de alguma parte do corpo,
Com a prática você pode ir voltando a sua atenção a essas partes mais anestesiadas que você não sentiu e permanecer com a atenção a esses pontos,
Numa tentativa tranquila de manter a percepção focada ali,
Até surgir uma sensação,
Porém sem pressa,
Sem incômodo,
Sem problema.
Continue descendo a sua atenção pelas pernas,
Pelos joelhos,
Relaxando,
Soltando,
Reequilibrando,
Chegando aos tornozelos e aos pés,
Perceba se seus pés estão bem plantados no chão ou aonde quer que seus pés estejam,
Tente sentir todos os seus pés até a sola dos pés,
Os dedos dos pés,
Volte com a sua atenção na direção oposta,
Fazendo o scan de subida,
Trazendo a sua sensação e a sua percepção para o tornozelo,
Os joelhos,
Passando ali pelas panturrilhas,
Tentando sentir toda a parte da perna,
Nesta região,
Canelas,
Se possível,
Tente sentir por dentro também,
Até os ossos,
E traga uma sensação de soltura completa,
Não só da parte externa,
Mas também interna da sua perna,
Como se relaxasse por dentro,
E faça o mesmo com todas as outras partes do corpo,
Subindo a sua atenção pelos joelhos,
Suas coxas,
Trazendo soltura,
Dando comando de paz,
De relaxamento,
De abrir mão das tensões,
Chegando até o seu quadril,
Tente sentir toda a musculatura dessa área,
Tente soltar o máximo possível,
Subindo com a sua atenção para a região abdominal,
Relaxando,
Soltando,
Harmonizando,
Reequilibrando,
Ao mesmo tempo,
Sinta suas mãos,
Seus braços,
Que devem estar mais ou menos na altura da região abdominal,
Trazendo essa sensação de soltura e relaxamento,
Você pode,
Subindo a sua atenção pelos braços,
Ao mesmo tempo que sobe até o tórax,
Com esse scan horizontal do seu corpo,
Soltando mais uma vez as costas,
É possível que se tenha havido alguma preocupação,
Alguma distração,
Que tenha se restabelecido alguma tensão corporal relacionada a este pensamento,
Então faça sempre o comando de relaxamento,
Novamente,
Nas mesmas regiões corporais que você já permitiu relaxar antes,
Então as costas,
O tórax,
A soltura dos ombros,
Do pescoço,
Fazendo esse scan subir novamente a sua cabeça,
Região maxilar,
Subindo até os olhos,
Trazendo relaxamento,
Soltura,
Tranquilidade,
Abrindo mão de julgamentos,
Abrindo mão de conceitos,
Soltando esses pensamentos e focando simplesmente no sentir,
Sem nenhuma rotulação de certo ou errado,
Simplesmente curtindo o momento,
Sem a tentativa de chegar a lugar nenhum,
Simplesmente observando o que você pode encontrar e soltar e deixar ir,
Ao mesmo tempo que você relaxa as tensões corporais,
Os olhos,
Você deixa ir o que você estava segurando com esses olhos,
Cenários que você está mantendo preso na sua mente ou se mantendo preso ou presa a esses cenários,
Você simplesmente solta e traz a sua atenção ao momento presente através da sua percepção do seu corpo,
Da sua cabeça,
Voltando a relaxar o cérebro,
Pense no seu cérebro como se fosse também um músculo,
Imagine que o cérebro é um músculo,
Uma mão,
Uma terceira mão que você tem e que segura situações,
Preocupações,
Desejos e você deixa ir,
Você solta,
Você pede com a sua intenção o relaxamento desse músculo,
Entre aspas,
Que é o seu cérebro,
Relaxando os olhos,
Relaxando o cérebro.
Tente sentir agora todo o seu corpo,
Tente trazer a sensação física de todo o seu corpo relaxado,
Solto,
Tranquilo,
Harmonizado,
Numa postura de descanso,
De relaxamento,
Tente trazer essa intenção de soltura para o corpo inteiro por completo,
Tente sustentar essa sensação por mais alguns segundos,
Pode ir mexendo as suas mãos,
Os seus pés,
Abrindo os olhos quando quiser,
E a gente vai terminando a nossa prática aqui.
Espero que essa prática,
Esse áudio tenha sido proveitoso para você e até a próxima!
Conheça seu professor
