E agora vou sugerir que deixes de fazer o que estás a fazer,
Que pegues numa folha e numa caneta e te deites de barriga para cima,
Ou senta-te só confortável em algum lado.
Mas tenta estar confortável,
Sem assim um grande esforço para ficares na postura em que estás.
E tenta também encontrar o sítio onde sabes que não vais ser interrompido.
Eu vou ler a passagem de um livro que já referi no meu primeiro episódio da série de livros,
É o Um,
Ninguém e Cem Mil do Luigi Pirandello.
Começa a fechar os teus olhos,
Traz a mão direita ao peito e traz a mão esquerda por cima da direita.
Permite que cada palavra que ouves entre realmente em ti.
Ouve só e sente cada palavra e depois deixa de ficar.
Por uns minutos mais segue simplesmente o som da minha voz.
Eu queria estar só,
De um modo totalmente insólito,
Novo,
Exatamente ao contrário daquilo que vocês pensam.
Ou seja,
Sem mim.
E justamente com um estranho por perto.
Isto já vos parece um primeiro sinal de loucura?
Talvez porque não estão a refletir bem.
A loucura podia já estar em mim,
Não nego.
Mas peço que acreditem que o único modo de se estar realmente só é este que vos digo.
A solidão nunca está convosco,
Está sempre em vós.
E só é possível com um estranho por perto,
Seja ele lugar ou pessoa,
Que vos ignore completamente e que vocês ignorem completamente.
De maneira a que a vossa vontade e o vosso sentimento fiquem suspensos e perdidos numa incerteza angustiante.
E,
Ao cessar toda a afirmação de vós,
Cesse a própria intimidade da vossa consciência.
A verdadeira solidão está num lugar que vive para si e que para vós não tem traços nem voz.
E onde,
Por conseguinte,
O estranho sois vós.
Era deste modo que eu queria estar só.
Sem mim.
Quero dizer,
Sem aquele mim que eu já conhecia ou que julgava conhecer.
Só.
Com um determinado estranho que eu já sentia obscuramente que não podia afastar de mim.
E que era eu próprio.
O estranho e inseparável de mim.
Sentia então a presença de um só.
E esse um,
Ou a necessidade que tinha de me encontrar sozinho com ele,
De o pôr diante de mim para o conhecer bem e conversar um pouco com ele,
Já me perturbava muito,
Como uma sensação entre o asco e o terror.
Se para os outros eu não era aquilo que até agora acreditar a ser para mim,
Quem era eu?
Presta atenção aos sons que te rodeiam.
Dos mais longínquos aos sons mais próximos de ti.
Incluindo o som da tua respiração.
Teste agora a mão esquerda para ficar por cima da tua barriga.
E enquanto o fazes,
Repete para ti mesmo.
A minha mão esquerda toca a minha barriga.
A minha mão direita toca o meu coelho.
Repete para ti mesmo.
Sente a expansão e elevação do teu corpo em cada inspiração que fazes.
E sente a entrega,
Contração e relaxamento do teu corpo em cada expiração.
Expansão.
Entrega.
Expansão.
Entrega.
Repare na temperatura da sala.
Nos cheiros que te rodeiam.
Sente o teu corpo em contacto com aquilo que o suporta.
Cada pontinho de contacto entre o teu corpo e esse apoio.
Por trás dos teus olhos fechados visualiza o espaço em que te encontras.
Visualiza as paredes que te rodeiam.
As janelas.
A porta.
O teto.
A mobília.
O chão.
E o espaço que te contém.
O que quer que seja que apoia o teu corpo.
E visualiza o teu corpo.
Completamente imóvel,
Relaxado e tranquilo.
A ser plenamente apoiado.
A poder entregar-se.
Deixar-se ir.
Visualiza a tua respiração a expressar-se no teu corpo.
Expansão.
Entrega.
Expansão.
Entrega.
Por trás dos teus olhos fechados visualizas um tapete mágico na sala onde te encontras.
Tu sobes para esse tapete e deixas que te leve.
Que te eleve para fora dessa sala e te guie numa viagem.
Vês o prédio onde estavas.
As ruas.
A cidade.
Aproximas-te tanto das nuvens que quase as consegues tocar.
Este tapete leva-te para o teu lugar preferido no meio da natureza.
Tu sais do tapete e sentes o chão.
Sentes a terra por baixo dos teus pés.
Observe tudo o que te rodeia.
Neste espaço que é só teu.
Vês árvores.
Quão altas elas são.
Vês plantas.
Flores.
Água à tua volta.
Um riacho.
Um lago,
Talvez.
Ou mesmo um pedaço de mar.
Consegues ver o mar no teu lugar preferido.
Enquanto exploras este teu abrigo vês uma criança a brincar lá ao longe.
Uma criança que brinca.
Que corre.
Que explora.
Que sabe que o mundo foi feito para ela explorar.
Como é que esta criança está vestida?
Vai-te aproximando dela.
Observa os seus movimentos.
A sua simplicidade.
A sua leveza em ser.
À medida que te aproximas apercebes-te que és tu.
Esta criança.
És tu.
Repara como sorri para ti à medida que te aproximas cada vez mais dela.
Brinca com ela se te atreveres.
Sem imposições.
Sem bloqueios.
O teu eu mais criança.
Mais sincero.
Mais presente.
Mais leve.
Mais livre.
Ela para o que estão a fazer.
Senta-te.
E tenta dizer-te alguma coisa.
Escuta.
Agora és tu que lhe tentas dizer alguma coisa.
Talvez queiras responder.
Talvez queiras simplesmente dizer-lhe algo.
Aqui não há certo nem errado.
É o teu lugar preferido.
Se ainda não o fizeste.
Diz-lhe só isto antes de partires.
Olhar nos olhos.
E diz.
Eu lembro-me de ti.
Eu vou sempre lembrar-me de ti.
Eu encontro-te em mim.
Espere-te desta criança.
Ela vai ficar no teu lugar preferido no mundo.
Tu sobes ao teu tapete mágico.
Que te leva de volta a este espaço físico em que te encontras.
De volta ao teu corpo.
À tua respiração.
Aos cheiros que te rodeiam.
Aos sons.
E ao silêncio deste momento.
Sem movimentos bruscos começa lentamente a abrir os olhos.
Pega no teu papel e na tua caneta e aponta como é que era o espaço em que te encontravas.
Que detalhes chamaram a atenção?
Qual é que foi a mensagem entre ti e esta criança?
Ou qualquer pensamento,
Emoções e sensações que tenham surgido na tua interação com ela,
Com esta criança.
Que és tu.
Vá repetindo esta meditação guiada.
Apontando aquilo que surge.
E conectando com uma parte essencial de ti mesmo.
A criança que existe dentro de ti.
E que te pede que te lembres dela.
Que a vida não tem de ser levada tão a sério.
Que o momento presente é tudo aquilo que temos.
E que muitas das histórias que contamos a nós próprios são faz-de-conta temporários.
Vemo-nos no próximo episódio.
Namastê.