
Desconstruir a "Não Violência"
A não violência é um convite. Um convite para prestarmos atenção às nossas ações, palavras e pensamentos. Um dos ensinamentos do Yoga que nos permite refletir e olhar sob outra perspetiva para a nossa relação com o outro, com o nosso eu e com a natureza.
Transcript
Olá,
O meu nome é Inês e o meu convite para este áudio é que o escutes e leves contigo apenas aquilo que te fizer sentido.
Este mês que passou,
O mês de Fevereiro,
Eu levei para as aulas,
Para as práticas do mês,
O tema sobre a não-violência.
Abordámos e partilhámos um pouco sobre este princípio do yoga.
Para contextualizar um pouco,
Este princípio pertence a um conjunto de cinco princípios chamado Yamas.
Se gostavas de explorar mais sobre estes princípios que o yoga nos fala,
Pesquisa por Os Oito Passos de Patanjali.
Eu decidi gravar este áudio primeiro com o objetivo de resumir o tema de prática do mês de Fevereiro para as pessoas que fazem aulas comigo,
Mas depois senti que deveria partilhá-lo também por aqui.
Vamos então desconstruir o que é isto da não-violência,
Mas primeiro convido-te a tirarmos aqui um bocadinho de tempo,
Fecharmos os olhos,
Respirarmos fundo e repetirmos mentalmente o mantra que eu criei para este mês,
Para abordar este tema.
Então inspira,
Expira.
Eu respeito o meu corpo,
O meu processo,
O meu ritmo.
Eu me acalmo com as minhas sombras para potencializar a minha luz.
Não me deixo ir pela raiva ou frustração,
Nem pelo julgamento ou comparação.
A semente da não-violência começa em mim.
E podemos voltar a abrir os olhos.
Então provavelmente se nós nos questionarmos,
Sou uma pessoa violenta,
A resposta será não,
Não sou uma pessoa violenta.
Sabemos que é errado matar,
Fazer mal ao outro,
Agredir fisicamente o outro.
Mas a verdade é que a não-violência que o yoga nos fala é algo mais profundo,
Não é apenas sobre como nós nos relacionamos com o outro,
Mas também sobre a nossa relação com o nosso eu e com o planeta Terra em que vivemos.
É uma relação de paciência,
Compaixão e respeito com o interior e exterior a nós.
É um convite,
Sobretudo para prestarmos atenção não só à forma como nós agimos,
Às nossas ações,
Como também ao que sai da nossa fala,
Às nossas palavras e pensamentos.
E tudo começa por nós.
Se nós pensarmos quantas vezes nós,
No nosso dia-a-dia,
Nos chateamos com alguém no contexto de trabalho,
No nosso círculo mais próximo,
Não pela situação em si,
Mas porque nós chegámos a casa porque aconteceu outra situação.
Ou seja,
Um acumular de situações que depois é que proporciona uma discussão.
Eu,
Por exemplo,
Eu percebo-me que muitas das discussões que eu tenho acontecem porque eu já estava irritada ou chateada com alguma coisa.
Por isso é que é importante,
E por isso é que nós também trabalhamos muito isso nas aulas de yoga,
O criar espaço,
O libertar energia acumulada que não nos serve.
Quando o eu expiramos,
Nós libertamos o ar,
Libertamos essa energia,
Criamos espaço,
Porque a energia que fica acumulada fica retraída e não flui,
E nós precisamos de ela fluir.
Nós precisamos de deixar que essas emoções fluam,
Devemos sim permitir-nos senti-las,
Mas depois temos que aprender a deixar elas fluírem.
Então,
A não violência convida-nos a refletir sobre o porquê de sentirmos o que sentimos,
Sem qualquer definição de certo ou errado,
Mas para prestarmos atenção a essa emoção,
Para prestarmos atenção à forma como nos relacionamos com o outro,
Novamente com o nosso eu,
E com a natureza.
É importante perceber que a não violência não nos fala aqui sobre sermos passivos,
Sobre aceitar tudo,
Sobre ser amigos de todo mundo,
Só paz e amor.
Nós quando entramos no caminho do yoga,
Nós não viramos santos,
Nós continuamos a ser seres humanos,
Então o ser humano viaja muitas vezes por impulso.
O que a não violência nos pede é olhar aqui de uma forma diferente sobre as situações que acontecem,
Sobre nós nos chatearmos com alguém e reagirmos por esse impulso,
Dessa emoção de estarmos irritados com algo,
Mas depois ganharmos outra consciência de,
Ok,
Porquê que eu reagi assim,
Porquê que eu não levei a conversa para este sentido,
Porquê que eu levei para este?
Então é sobretudo,
O yoga ensina-nos aqui a olharmos de uma forma diferente sobre as situações,
Para conseguirmos ganhar novos olhares,
Novas perspectivas,
Ver as coisas por outros ângulos.
Então nós vamos continuar a agir,
Não vamos ser passivos sobre a vida.
E é importante também aqui perceber que vai haver casos em que nós sim vamos ter que utilizar a não violência,
Por exemplo,
Se eu estiver a ser ameaçada na rua,
Eu muito provavelmente vou utilizar a violência para me proteger,
Utilizo-a como defesa.
Se alguém,
Por exemplo,
No meu contexto de trabalho ou fora dele,
Estiver a ultrapassar um limite comigo,
Eu vou reagir utilizando um pouco a violência,
Por exemplo,
No meu tom de voz,
Para conseguir marcar a minha posição.
Porque se eu não agir com violência,
Eu estou a deixar que o outro seja violento comigo,
Não é?
Então cada caso é um caso e não é para criar aqui uma imagem à volta da não violência,
De,
Como eu disse um pouco,
De paz e amor em todo o mundo.
Mas é sobre nós olharmos sobre as nossas atitudes,
Sobre as nossas atitudes para connosco,
Como é que agimos connosco,
O que é que nós dizemos a nós mesmos,
A forma como agimos com o outro,
Com a natureza,
O que é que nos passa pela mente.
Então,
E é importante perceber que o yoga é sobre agir,
Não é?
É sobre ser passivo e vai haver situações em que sim,
Que nós vamos ter que recorrer à violência,
De forma a nos protegermos,
O ser humano também tem isso,
Quando sente uma ameaça ele protege-se,
Não é?
Mas aqui a questão é,
Será que nas situações mais banais do dia precisamos de recorrer à violência?
E se nós pensarmos,
Se calhar,
A um nível superficial,
Nós pensamos que não,
Que não somos violentos com o outro,
Que não somos violentos connosco,
Que não somos violentos com o planeta Terra em que vivemos,
Mas se refletirmos a um nível mais profundo,
Se calhar sim,
Vamos perceber que há certas atitudes que nós tomamos que se calhar não são as opções menos violentas que eu tenho ao meu dispor.
Então,
Cada caso é um caso,
Cada pessoa é uma pessoa e cada um de nós carrega o peso da sua história e muitas das nossas ações,
Palavras e pensamentos são impulsionados por essa história.
Mas no mundo onde reina,
Infelizmente,
A violência,
Não serão precisas mais sementes de paciência,
Respeito e compaixão e se nós pensarmos muito,
Não precisamos de muito,
Aliás,
Se nós,
Não é preciso pensar muito para perceber que existem várias formas para plantar estas sementes.
Nós podemos elogiar mais os outros e mesmo a nós,
Podemos incentivar mais o outro e incentivar-nos a nós,
Podemos sorrir mais uns aos outros,
A pessoas desconhecidas,
Podemos deixar alguém passar à nossa frente na fila do supermercado,
No trânsito,
Podemos enviar uma mensagem a alguém a demonstrar o nosso amor a essa pessoa ou a dizer mesmo pessoalmente,
Que é ainda melhor,
Os nossos sentimentos por essa pessoa,
Podemos oferecer algo a alguém só porque sim,
Podemos fazer voluntariado e com isto não precisamos só de fazer voluntariado indo para um país estrangeiro e se tivermos a oportunidade ainda bem,
Mas podemos ajudar o vizinho do lado,
A carregar as compras,
Sei lá,
Há tanta coisa que ajudar alguém é passar a passadeira,
Há tanta coisa que há dia,
Às vezes,
Como nós andamos num ritmo acelerado,
Não nos apercebemos,
Estamos só a olhar para o nosso umbigo então abrir mais o nosso olhar sobre também as formas com que nós podemos contribuir para nos relacionarmos melhor,
Não só com as pessoas que são do nosso círculo mais próximo,
Mas também com aquelas que vivem no mesmo planeta que nós Então,
Há imensas atitudes que nós podemos tomar,
É só sair fora do olhar a que infelizmente nós estamos acostumados e aqui da nossa relação com o planeta Terra.
Um dos assuntos em que há mais conflito,
Acho eu,
Quando se fala de um tema no mundo do yoga é o consumo de carne.
Então,
Porquê?
Porque a verdade é que indiretamente nós matamos animais para alimento ou para bens,
Então existe aqui um conflito do género,
Ok,
Se eu sou praticante de yoga supostamente eu pratico a não violência,
Então supostamente eu devia adotar uma dieta vegetariana ou mesmo um estilo de vida vegan para não contribuir para a indústria da carne.
A verdade é que eu acho que isto não tem nada a ver Eu acho que sim,
Que nós ou consumirmos animais ou matarmos animais de uma forma indireta,
Não é?
Porque quando o animal chega ao nosso prato para o comermos não fomos nós que o matámos de uma forma direta,
Mas matámos de uma forma indireta.
Alguém matou por nós para nós o conseguirmos comer e nós também contribuímos para essa indústria da carne.
E a verdade é que vendo um bocadinho sobre documentários que existem por aí e mesmo quando se explorarmos mais sobre este tema,
Conseguimos perceber que existe sim muita violência com a natureza que nos sustenta no lugar onde vivemos.
Mas eu não diria que por isso,
Se não nos fizer sentido,
Eu não diria que temos que adotar um estilo de vida vegan.
Pois acho que se nós nos estamos a obrigar a isso só para poder encaixar no padrão de praticante de ioga,
Do género eu sou praticante de ioga,
Não consumo carne Nós a querer nos encaixar num padrão estamos nos a obrigar a fazer algo que nem nos faz sentido e sim é um tipo de violência para connosco.
Eu por exemplo posso falar da minha experiência eu não como carne nem peixe,
Já alterei sim muitas coisas na minha alimentação e no meu dia-a-dia para tentar ter uma atitude menos violenta em relação à natureza mas só porque me fez sentido.
Aliás eu deixei de comer carne porque simplesmente enjoei de comer carne.
Depois aí comecei a explorar mais sobre o vegetarianismo,
O veganismo e fez-me sentido sim a reduzir o meu contributo para esta indústria animal.
Mas isto sou eu e não levo isto como uma obrigação.
Aliás,
Esta passagem eu tinha,
Tínhamos na nossa mesa,
Tínhamos camarão e eu adoro camarão e eu olho para o camarão e nem pensei duas vezes,
Eu comi o camarão.
Não me impedi só porque supostamente eu agora não como peixe.
Então eu não me vou enquadrar em nenhum padrão alimentar eu tento escutar o que me faz sentido e eu sou da opinião que devemos sim honrar a terra em que vivemos,
Honrar e cuidar da natureza que nos rodeia e permite-nos,
Permite a nossa existência mas existem muitas coisas que cada um de nós pode fazer,
Como reciclar ou restaurar ou conservar e preservar a vida que o nosso planeta suporta,
Sem certo ou errado,
Porque a verdade é que cada um de nós vai ter um impacto sobre a terra então eu acho que a não violência convida-nos sobretudo a refletir.
Ok,
Eu vou criar um impacto sobre a terra,
Mas como é que eu posso deixar um menor impacto e sentir aquilo que me faz sentido,
Agir conforme aquilo que me faz sentido?
Então,
Não se sintam na obrigação de,
Eu agora sou praticante de ioga,
Não posso consumir carne.
Não,
Se isso fizer sentido para ti,
Não consumas carne.
Mas não te obrigues a encaixar num padrão,
Há professores de ioga que consomem carne não sou nada dessa perspectiva de,
Lá está a era,
Como no início eu também falava,
Tu vais continuar a discutir com pessoas,
Vais continuar a chatear com situações do teu dia-a-dia,
O ioga não está aqui para te tornar um santo e quando tu te obrigas a colocar nesse padrão,
Nessa caixinha do eu tenho que ser paz e amor,
Eu tenho que estar sempre tranquilo,
Eu tenho que estar sempre bem,
Eu tenho que estar sempre em paz,
Aí é que tu vais estar a criar uma violência contigo,
Porque vais estar a obrigar,
Vais estar a reprimir emoções que naturalmente o ser humano sente então,
Permite sentir o que sentes e depois presta apenas atenção,
Ganha mais consciência sobre as tuas atitudes,
Sobre as suas atitudes,
Sobre os teus pensamentos,
Sobre as tuas palavras,
Sobre a tua relação contigo,
Com o outro e com a Terra,
É isto que a não violência pede de nós E sem me alongar muito mais,
Vou fazer um último convite para este áudio,
Vou pedir-te,
Para que se estivesse aí ao pé de ti,
Um caderno,
Papel,
Caneta,
Podes fazer agora ou mesmo depois de terminares este áudio tiras aqui um tempinho para apontar algumas questões que eu vou te deixar aqui,
Para refletires,
Para percebes o que é que te fez sentido,
Para te permitires conhecer melhor porque estes princípios que o yoga nos fala são sobretudo para isso,
Também para nós ganharmos mais conhecimento sobre nós Então,
A primeira questão que eu tenho para ti é As ações do meu dia-a-dia vão de encontro àquilo que eu sinto que quero?
As minhas palavras refletem aquilo que eu sinto?
Como é que eu alimento a minha mente?
Será que eu alimento a minha mente com pensamentos negativos?
Sobre mim?
Sobre a minha vida?
Como está a minha paciência?
Tenho paciência comigo?
E com o outro?
Quando faço as posturas no tapete,
Ultrapasso o meu limite físico,
Mental e emocional daquele momento?
E no meu dia-a-dia?
Ultrapasso também os meus limites?
Eu respeito o meu ritmo?
E o do outro?
Como é que eu reajo quando uma pessoa com quem converso tem uma opinião completamente diferente da minha?
Como lido com a comparação e com o julgamento?
Costumo sentir-me frustrada,
Frustrado porque gostaria de ver mudança na minha vida ou no mundo?
Faço algo para quebrar ou transformar esse padrão que gostaria que fosse diferente?
Quando foi a última vez que me chateei com algo?
Que me irritei com algo?
Como é que eu reagi face a essa situação?
Eu tinha controle sobre a situação?
Como é que é a minha relação com a natureza?
Que atitudes é que eu já adoto para criar um menor impacto?
E que atitudes é que eu poderia adotar?
São algumas questões que eu te deixo aqui para,
Quando tiveres um tempo,
Refletir sobre as mesmas.
E é importante refletirmos sobre esta parte que o yoga nos ensina e que muitas vezes não é tão visível como as posturas físicas.
Mas o yoga não acontece só no tapete.
Ele,
Na verdade,
Começa a acontecer quando levamos os seus ensinamentos para as situações do dia a dia,
Para os desafios do dia a dia.
Para o nosso dia a dia.
Obrigada por me ter escutado até ao fim e até ao próximo áudio.
Um dia feliz!
