
As Portas dos Sentidos
by Joao Palma
Começando com uma consciência do corpo e da respiração, vamos convidando a atenção a notar sons, pensamentos, emoções até chegarmos a uma consciência aberta, onde simplesmente repousamos, presentes a tudo o que nos chega através das 6 portas dos sentidos. Terminamos com um poema da Mary Oliver.
Transcript
Então,
Começamos com uma postura que nos seja confortável,
Onde consigamos encontrar alguma estabilidade,
Procurando um equilíbrio entre o lado esquerdo e o lado direito do corpo.
Tão grande quanto possível,
Uma coluna direita que cresce naturalmente,
Verticaliza naturalmente,
E que de certa forma nos traz alguma dignidade na postura,
Reconhecendo a possibilidade de soltarmos tensões no corpo,
Talvez deixando de cair os ombros,
Suavizando a face,
Os braços e as mãos relaxados,
E gentilmente fechando os olhos.
Vamos assim tomar uma consciência geral deste corpo,
Aqui sentado,
Notando o contacto do corpo com as superfícies que nos suportam,
Onde nos apoiamos,
Talvez notando o contacto dos pés com o chão se estivermos sentados numa cadeira,
Ou o contacto das pernas no chão se estivermos sentados no chão numa almofada,
E o contacto das nábeas com a almofada ou com a cadeira.
É que sensações sentimos nestas partes do corpo,
Nestas partes que nos ligam à terra,
Que nos ajudam a enraizar,
Vamos assim também reconhecendo o nosso peso e permitindo entregar o peso ao sustento da terra,
Reconhecendo a força natural da gravidade.
Então encontrando esta postura que nos convida a soltar,
A entregar-nos,
Até mesmo a rendermos à gravidade,
Mas que por outro lado nos traz dignidade e vitalidade,
E ao irmos tomando consciência do corpo,
Naturalmente vamos notando a respiração,
Uma respiração natural.
No momento em que a consciência toma contacto com a respiração é possível que por vezes sintamos que de alguma forma estamos a alterar a respiração,
E no entanto há também esta compreensão de que o corpo não precisa de qualquer autorização da mente para respirar,
É isto que o corpo faz desde o primeiro instante da nossa vida,
Respiramos.
Então vamos permitindo que a respiração encontre o seu ritmo natural,
Confiando no corpo,
Confiando na gravidade,
Vamos soltando resistências e trazendo esta mente interessada,
Presente,
Que nota cada inspiração e cada inspiração conforme estas vão ocorrendo,
Momento a momento,
Talvez consigamos notar os movimentos da respiração no corpo,
Na zona abdominal,
Conforme esta se expande e contrai,
Ou talvez seja mais fácil notarmos na zona do peito.
Outra possibilidade é notarmos as sensações que nos surgem nas narinas com cada inspiração e cada inspiração,
Podemos escolher ancorar a atenção numa destas partes do corpo ou simplesmente estarmos presentes de uma forma mais geral a este corpo enquanto respiramos,
Aquilo que for mais fácil para cada um de nós,
E vamos reconhecendo na respiração esta âncora ao momento presente,
Que usamos quando nos sentamos para meditar,
Mas lembrando que esta âncora,
Esta respiração,
Acompanha-nos ao longo de toda a nossa vida,
Então há sempre assim um recurso que temos em qualquer instante do nosso dia,
Em qualquer instante da nossa vida,
Sabemos que podemos sempre recorrer à respiração,
Podemos sempre voltar ao momento presente,
Notando cada inspiração e cada expiração momento a momento,
Mesmo nos momentos de silêncio em que não ouvimos estas palavras,
O convite mantém-se,
Ao inspirar estamos conscientes,
Sabemos que estamos a inspirar,
E ao expirar sabemos e estamos conscientes que estamos a expirar,
Está esta respiração neste momento,
Qual o seu ritmo,
Textura,
Que movimentos e sensações nos traz no corpo,
E notando como não há duas respirações iguais,
Da mesma forma que não há dois momentos iguais,
E o melhor que conseguimos,
Vamos abrindo espaço para que possamos estar com a respiração,
Mas com o corpo como um todo,
Consciência abre-se a todo o corpo,
Notando não só a respiração,
Mas todas as outras sensações que vão chamando pela nossa atenção,
Algumas agradáveis,
Outras desagradáveis,
O contacto da pele com a roupa,
O contacto da pele com o ar,
Uma zona mais tensa,
Outra zona mais relaxada,
E a respiração nos vai acompanhando a cada momento,
E vamos trazer um novo convite à prática,
Vamos permitir que a respiração se mantenha presente,
Mas um pouco mais para o segundo plano,
E vamos trazer para o primeiro plano da nossa atenção os sons,
Sons que nos chegam aos ouvidos,
Qualquer som,
O som destas palavras,
O som da nossa própria respiração,
Ou qualquer outro som que nos chega de dentro ou de fora do corpo,
De dentro ou de fora da sala onde nos encontramos,
Que nos chegam de diferentes direções,
Que nos chegam com diferentes intensidades e com diferentes durações,
E melhor que conseguirmos,
Vendo se é possível estar com o som,
Apenas com o som,
Sem termos que analisar,
Sem termos que rotular,
É um som,
Simplesmente um som,
Todos eles impermanentes,
Chegam,
Têm o seu tempo de duração,
Isso é som,
E tal como não há duas respirações iguais,
Não há dois sons iguais,
Não há dois momentos iguais,
E notando que impacto é que os sons que nos chegam têm na nossa experiência,
Se são agradáveis,
Se são desagradáveis,
Ou simplesmente são neutros,
Se são desagradáveis talvez notando se criamos alguma aversão,
E dentro do possível criando um espaço onde todos os sons são bem-vindos,
Não só aqueles que nos trazem prazer ou aqueles que queremos ouvir,
Mas todos os sons no nosso campo de experiência são bem-vindos,
E vamos deixar que os sons mantenham-se presentes mas que se dissolvam um pouco no segundo plano da nossa atenção,
E agora vamos trazer para o primeiro plano da atenção aquilo que está presente na mente,
De poder notar se há pensamentos que surgem,
Se há imagens,
Memórias,
Planos,
Fantasias,
E não estamos aqui a querer trazer nada da mesma forma que não trazemos os sons,
Os sons simplesmente surgem,
Os pensamentos simplesmente surgem,
E nós notamos os pensamentos tal como notamos os sons,
Sem interferir,
Talvez até notemos por momentos que não há pensamentos,
Mesmo que seja por alguns instantes,
Há uma ausência de pensamentos na mente,
E lá de seguida há surge um e outro,
E quando andamos por nós,
Já não sequer estamos presentes à prática,
Pensamento levou-nos a dar uma volta,
Contou-nos uma história,
E deixámos de estar presentes,
E num momento em que reconhecemos que a mente nos levou a dar uma volta,
Trazemos um sorriso e convidámos a atenção de volta,
É este momento presente,
É este aqui agora,
E é por isso também o quão impermanentes são os pensamentos,
E dentro do possível,
Sem querer nos interpretar,
Sem julgar,
Notando os pensamentos enquanto pensamentos,
Fenómenos na mente impermanentes,
Por vezes pensamentos mais intensos,
Com cargas emocionais,
Que nos tomam como reféns,
E podemos sempre,
Num momento em que tomarmos consciência de que estávamos no pensamento,
Convidar a atenção a voltar,
Com gentileza,
Com bondade,
Por vezes deparamos até mesmo com emoções,
Sentimentos,
Por vezes agradáveis,
Por vezes desagradáveis,
Seja qual for a emoção que nos visita,
Ela é feita da mesma natureza impermanente que qualquer pensamento,
Som,
Sensação no corpo,
Tudo muda,
Tudo se transforma,
Tudo cessa,
Se houver alguma emoção presente,
Podemos até mesmo fazermos a pergunta,
Como é que eu sei que estou a ter esta emoção?
O que é que acontece na minha experiência,
Neste momento que me diz que estou a ter esta emoção?
Há algum pensamento associado às sensações no corpo?
E pouco e pouco vamos largando qualquer âncora e entramos numa consciência aberta,
Uma consciência aberta que simplesmente nota aquilo que nos chega,
Aquilo que nos chega pelas seis portas dos sentidos,
Aquilo que nos chega pelos cinco sentidos que temos,
A visão,
O olfato,
A audição,
O paladar e o toque,
E aquilo que nos chega pela sexta porta,
A mente,
Então simplesmente repousarmos num espaço de consciência aberta onde estamos presentes a todos os estímulos que nos chegam através destas seis portas e notarmos que quando não interferimos com a experiência que todos os estímulos que nos chegam cessam,
São impermanentes,
Não precisamos de escolher aquilo que queremos notar,
Pois algo na nossa experiência se vai fazer notar e o nosso convite é simplesmente estarmos presentes a isso,
Estarmos presentes a tudo aquilo que chama pela nossa atenção,
Sem criarmos aversão,
Sem nos apegar,
Simplesmente observando o fluxo impermanente da nossa experiência,
Repousando num espaço de consciência aberta,
Vasto e infinito,
Se dermos por nós demasiado dispersos,
Agitados,
Podemos sempre convidar a atenção a voltar ao corpo e à respiração,
Estabilizando a mente,
Criando um maior foco e uma vez mais presentes abrimos novamente e não queremos notar apenas aquilo que é mais óbvio,
Mais grosseiro,
Aquilo que nos dá mais prazer ou dor ou desconforto,
Mas queremos notar também aquilo que tão habitualmente nos escapa,
O sutil,
Até mesmo aquilo que nos é neutro,
Ou que tendemos a rotular de neutro,
Ou que quer que chegue à nossa consciência que seja percepcionada,
Ou que quer que chegue às nossas seis portas dos sentidos,
É uma manifestação desta vida,
A mais pequena sensação,
O mais distante som da consciência,
Da transparência das pálpebras,
A imagem na mente que surge para rapidamente desaparecer,
Como é que é se nos deixarmos encantar por cada instante da nossa vida,
O que é que isso nos traz ao coração,
Quando reconhecemos finalmente que a nossa vida é um poema,
A luz que nos entra pela janela do quarto,
Um sorriso nos lábios,
Uma memória de quando éramos crianças,
Ou até mesmo todos os apertos e desconfortos da vida,
Que se revelam terreno fértil para crescimento,
Criarmos resiliência,
Para nos tornarmos mais compassivos,
Mais abertos à vida.
Conforme vamos entrar nos últimos minutos da prática,
Partilho com vocês um poema de Mary Oliver.
Todo dia vejo ou ouço alguma coisa que mais ou menos me mata com deleite,
Que me deixa como uma agulha num palheiro de luz.
Foi para isso que nasci,
Para olhar,
Ouvir,
Para me perder dentro deste mundo macio,
Para me instruir de novo e de novo em alegria e aclamação.
Nem estou a falar do excepcional,
Dos que têm medo,
Dos terríveis,
Dos extravagantes,
Mas do habitual,
Do comum,
Do monótono,
Das apresentações diárias.
Ó bom estudante,
Digo eu para mim mesmo,
Como podes tu não crescer sábio com ensinamentos como estes?
A luz irregular do mundo,
O brilho do oceano,
As orações feitas da rélva do jardim.
Que esta prática seja em benefício de todos os seres.
